Maternidade atípica impulsiona avanço de políticas para inclusão em Belém


Maternidade atípica impulsiona avanço de políticas para inclusão em Belém

Celebrado durante o mês de abril a campanha “Abril Azul” de Conscientização sobre o Autismo, reacende o debate sobre inclusão e acesso a direitos no Brasil. Em Belém, a ação evidencia não apenas avanços, mas também os desafios enfrentados por famílias de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Nesse cenário, a maternidade atípica tem ganhado força como agente político, levando mães a ocupar espaços de decisão e a pressionar por políticas públicas mais eficazes.

A maternidade costuma ser associada a uma jornada linear, mas, diante de realidades atípicas, essa experiência exige uma profunda reconfiguração da rotina familiar e da relação com a sociedade. Em Belém, a ausência histórica de políticas estruturadas e as barreiras de acessibilidade têm levado mães a transformar vivências pessoais em mobilização pública, levando a pauta da inclusão ao centro do debate político.

A sobrecarga é constante. Entre atendimentos clínicos, desafios na inclusão escolar e episódios de preconceito, muitas dessas mulheres enfrentam um cotidiano de exaustão física e emocional. Para parte delas, a entrada na política não nasce como ambição de carreira, mas como necessidade de garantir direitos básicos para seus filhos.

A dimensão do desafio pode ser observada nos números. Embora o Brasil ainda avance lentamente na consolidação de dados oficiais, o Censo do IBGE de 2022 foi o primeiro a incluir perguntas sobre o espectro autista. Estimativas apontam que mais de 2 milhões de brasileiros estejam dentro do TEA. Em nível global, dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, indicam uma prevalência de 1 caso a cada 31 crianças.

No campo legal, houve avanços importantes. A Lei Berenice Piana (Lei nº 12.764/2012) estabeleceu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com TEA, enquanto a Lei Romeo Mion (Lei nº 13.977/2020) criou a Carteira de Identificação da Pessoa com TEA (CIPTEA). No entanto, a efetivação desses direitos ainda enfrenta obstáculos práticos, especialmente em áreas como saúde e educação.

Em Belém, os desafios são evidentes. A falta de profissionais capacitados na rede pública de ensino, a escassez de mediadores escolares e a limitação no atendimento multidisciplinar são algumas das principais demandas apontadas por famílias.

É nesse contexto que a atuação de parlamentares na Câmara Municipal ganha destaque. Mulheres e mães atípicas, como as vereadoras Ágatha Barra (PL) e Nay Barbalho (PP), têm levado ao Legislativo municipal pautas relacionadas à inclusão, com foco em educação, saúde e garantia de direitos.

Ao abordar como a maternidade atípica transformou sua visão sobre a cidade e a política, Ágatha afirma:

“Foi um processo muito claro pra mim. A partir do momento em que você vive a maternidade atípica, você passa a enxergar a cidade com outros olhos, você começa a perceber as barreiras que, até então, eram invisíveis. A falta de atendimento adequado, a dificuldade de acesso a serviços básicos, a ausência de preparo em escolas e unidades de saúde. Eu entendi que não dava para separar isso da política.”

Essa mudança de percepção também é compartilhada pela vereadora Nay Barbalho, que relata como a busca por suporte após o diagnóstico revelou lacunas estruturais:

“O momento em que você busca uma rede de apoio após o diagnóstico, você percebe que ela não existe. O que existe são movimentos sociais buscando políticas públicas ainda inexistentes, voltadas para pessoas que estão verdadeiramente à margem da sociedade. Isso vale para todas as cidades. Foi a partir dessa realidade que passei a enxergar a dimensão da necessidade de inclusão.”

Sobre os principais entraves enfrentados na capital, Ágatha destaca:

“Ainda falta estrutura, falta capacitação de profissionais, falta integração entre saúde, educação e assistência social. Muitas famílias ainda enfrentam filas, falta de atendimento e ausência de suporte contínuo. Além disso, precisamos combater o preconceito e a desinformação. Inclusão é respeito, é oportunidade e é dignidade. Belém, infelizmente, ainda falha muito em todos esses aspectos.”

A complexidade da maternidade atípica também atravessa aspectos emocionais profundos. Nay Barbalho descreve os desafios dessa vivência:

“Uma formação profissional não prepara para a maternidade atípica. Ela envolve o luto pelo filho idealizado, a ausência de rede de apoio, a angústia sobre o futuro e um cotidiano marcado por avanços e retrocessos constantes. É uma experiência intensa, que transforma completamente a forma de viver.”

Diante dessa realidade, o mandato parlamentar ganha contornos de urgência prática. Ao transformar a vivência pessoal em atuação política, a formulação de leis passa a alcançar problemas que muitas vezes permanecem invisíveis.

“Desde a escolha das pautas até a forma como eu cobro o poder público, eu sei exatamente onde estão as falhas, porque eu vivi isso, porque eu recebo demandas de famílias diariamente. Por isso, meu mandato tem um foco claro em inclusão, saúde e garantia de direitos. Eu não trabalho com teoria, eu trabalho com realidade. Quando eu cobro atendimento, quando eu proponho políticas ou quando eu abro canais para denúncias, é porque eu sei o impacto que isso tem na vida das famílias.” afirma Ágatha.

Para Nay Barbalho, a causa da inclusão se torna inegociável quando está dentro da própria casa:

“A inclusão não tem partido, não tem ideologia. É uma causa que está dentro da minha casa e, por isso, é absolutamente inegociável. Os projetos que apresento têm como objetivo gerar impacto real na vida das pessoas, porque é disso que a gente precisa: prática de inclusão, não apenas o que está no papel.”

Apesar dos avanços pontuais, especialistas e representantes políticos convergem em um ponto: a construção de uma cidade mais inclusiva passa necessariamente por planejamento estrutural. Entre as prioridades estão a ampliação do acesso a diagnósticos precoces, a garantia de mediadores escolares e a criação de centros especializados para atendimento ao longo da vida.

Mais do que uma pauta setorial, a inclusão se conecta diretamente ao modelo de cidade que Belém pretende construir. A pressão exercida por mães atípicas tem sido fundamental para tirar o tema da invisibilidade e levá-lo ao centro das decisões públicas.




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