Crime organizado avança no Pará e impõe controle territorial em áreas urbanas
A atuação de facções criminosas na Região Metropolitana de Belém tem ampliado seu alcance e influência, com impactos diretos na rotina de moradores de áreas periféricas. O caso da jovem Maysa Caroline Leal de Souza, de 26 anos, morta após ser submetida a um chamado “tribunal do crime”, evidencia a presença de estruturas paralelas de poder que operam à margem do Estado.
Segundo investigações, a vítima foi atraída por conhecidos até uma área de mata e executada sem qualquer possibilidade de defesa. O caso resultou em prisões, mortes em confronto com a polícia e na identificação de suspeitos ainda foragidos, entre eles Deivid Gutemberg, conhecido como “Escobar”.
Especialistas apontam que o avanço do crime organizado no estado está diretamente ligado ao processo de ocupação territorial. Em bairros de Belém e Ananindeua, grupos criminosos exercem controle sobre áreas inteiras, impondo regras e restringindo a circulação e atividades da população.
A expansão dessas facções ocorre, principalmente, por meio da violência e do recrutamento de jovens em contextos de vulnerabilidade social. Em regiões com acesso limitado a serviços públicos e oportunidades de emprego, esses grupos passam a exercer também influência social e econômica.
Além do tráfico de drogas, as facções têm ampliado suas fontes de renda por meio da cobrança de taxas ilegais. A chamada “taxa do crime” ou “taxa de segurança” é imposta a diferentes setores da economia local, incluindo comerciantes, prestadores de serviço e trabalhadores informais.
Entre os alvos mais frequentes estão pequenos e médios comerciantes, distribuidores de gás e água, provedores de internet clandestina e motoristas de transporte alternativo e por aplicativo. O impacto econômico é significativo, com fechamento de estabelecimentos e repasse dos custos da extorsão aos consumidores.
Outro instrumento de controle é o chamado “tribunal do crime”, sistema informal em que integrantes de facções julgam e punem moradores. As decisões, muitas vezes coordenadas a partir de presídios, podem resultar em agressões, expulsões ou homicídios.
Casos recentes ilustram essa dinâmica. Em Ananindeua, um empresário teve sua revendedora incendiada após se recusar a pagar valores exigidos por criminosos, resultando na destruição de mais de dez veículos. Já em Belém, no bairro da Cabanagem, um homem conseguiu escapar de uma tentativa de execução, interrompida após intervenção da Polícia Militar.
O avanço dessas estruturas também expõe limitações do modelo atual de enfrentamento, ainda concentrado em ações ostensivas. Entre os principais desafios estão a dificuldade de obtenção de denúncias, o uso de tecnologias de comunicação por grupos criminosos e a necessidade de ampliar a atuação de inteligência.
Há ainda preocupação com a diversificação das atividades dessas organizações, que passam a combinar o tráfico de drogas com o controle de serviços e territórios, fenômeno que alguns estudiosos classificam como uma aproximação entre facções e modelos de milícia.
Nesse cenário, especialistas apontam que o enfrentamento ao crime organizado exige ações integradas que vão além da repressão policial, incluindo políticas sociais, urbanização e presença contínua do Estado em áreas vulneráveis.
Sem essas medidas, o controle exercido por grupos criminosos tende a se consolidar, com impactos diretos na segurança pública, na economia local e na garantia de direitos básicos da população.



COMENTÁRIOS