Popularidade em alta, problemas também: a contradição das prefeituras no Pará
A divulgação do “Ranking Melhores Gestões 2026”, elaborado pelo Instituto Doxa, trouxe à tona altos índices de aprovação de prefeitos em municípios do Pará. Em algumas cidades do interior, os números superam 90%, chegando a 96% de avaliação positiva. No entanto, dados de órgãos oficiais e relatórios públicos indicam que esses índices convivem com desafios estruturais em áreas como saneamento básico e saúde.
O levantamento, baseado em entrevistas realizadas entre fevereiro e abril deste ano, mede a percepção da população sobre a gestão municipal. Apesar da ampla aprovação registrada, especialistas apontam que a avaliação popular nem sempre reflete, de forma direta, a qualidade dos serviços públicos essenciais.
O prefeito de São Miguel do Guamá, Eduardo PioX (MDB), lidera o ranking com 96,65% de aprovação. No entanto, dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) e da plataforma Infosanbas indicam que o município não possui sistema de coleta e tratamento de esgoto e parte significativa da população ainda enfrenta dificuldades no acesso à água encanada.
Esse cenário evidencia o contraste entre a avaliação positiva da gestão e os desafios históricos na oferta de serviços básicos.
Na segunda posição do ranking, o município de Vigia, administrado por Job Júnior (MDB), apresenta 92,60% de aprovação. Apesar do índice elevado, documentos oficiais, como o Plano Municipal de Saúde, apontam dificuldades na ampliação da cobertura da atenção primária e no atendimento a populações de áreas rurais e ribeirinhas.
A limitação de serviços de média e alta complexidade também faz com que parte dos pacientes precise buscar atendimento em outros municípios ou na capital.
Em Tailândia, o prefeito Lauro Hoffman (MDB) aparece com 91,89% de aprovação. O município, no entanto, enfrenta problemas recorrentes no abastecimento de água, com registros de interrupções frequentes no fornecimento.
Assim como em outras cidades do estado, não há cobertura de esgotamento sanitário, o que leva muitas famílias a recorrerem a soluções alternativas, como fossas, com possíveis impactos ambientais e sanitários.
A diferença entre altos índices de aprovação e dificuldades estruturais pode estar relacionada a fatores como a visibilidade de obras urbanas, estratégias de comunicação e expectativas da população em relação à gestão pública. Nesse contexto, a avaliação positiva tende a refletir percepções mais imediatas, enquanto problemas estruturais exigem investimentos de longo prazo.
A divulgação do ranking também reacendeu o debate sobre os critérios utilizados para medir a qualidade da gestão pública. Especialistas apontam que indicadores como infraestrutura, acesso a serviços essenciais e qualidade de vida devem ser analisados em conjunto com a percepção popular para uma avaliação mais abrangente.
Com as eleições de 2026 no horizonte, os dados reforçam a importância de compreender não apenas os índices de aprovação, mas também os desafios concretos enfrentados pelos municípios paraenses.



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