A Pedagogia da Impunidade: Quando a barbárie veste a farda do privilégio no Brasil
O riso diante do sofrimento alheio talvez seja a expressão mais cruel da desigualdade brasileira. Recentemente, Belém foi palco de uma cena que expõe as fraturas de uma sociedade atravessada por seus próprios abismos: dois estudantes de Direito foram filmados utilizando uma arma de choque contra um homem em situação de rua. Eles riam enquanto registravam o ato.
O episódio motivou a abertura de apurações pelas autoridades competentes. Ainda assim, tratá-lo como um desvio individual é uma resposta insuficiente e, no limite, confortável. O que está em jogo não é apenas a conduta de dois jovens, mas a lógica social que torna esse tipo de violência possível.
No Brasil, a desigualdade não apenas separa, ela ensina, molda e legitima comportamentos. Distribui silenciosamente a noção de quem importa e de quem pode ser descartado. Quando corpos, como os de pessoas em situação de rua, são sistematicamente invisibilizados pelo Estado, pelo planejamento urbano e pelo olhar cotidiano, abre-se espaço para que sejam tratados como alvos, e não como sujeitos de direitos.
Esse episódio não é um ponto fora da curva. Ele dialoga com uma longa tradição de violência marcada pela desumanização. Em 1997, o líder indígena Galdino Jesus dos Santos foi queimado vivo enquanto dormia em uma parada de ônibus em Brasília por jovens de classe alta, que alegaram estar fazendo uma “brincadeira”. A lógica é a mesma: a banalização da vida de quem ocupa a base da hierarquia social.
No Pará, a percepção de que prestígio social e poder político podem tensionar os limites da lei é um elemento persistente no imaginário coletivo. Casos envolvendo figuras influentes frequentemente colocam à prova a confiança nas instituições. O assassinato da jovem Renata Cardim, em 2015, em Belém, ilustra esse cenário. O ex-marido da vítima, Hélio Gueiros Neto, integrante de uma família tradicional da política local, foi acusado de feminicídio. Independentemente do devido processo legal, a repercussão pública revelou uma desconfiança difusa: a de que poder e status possam interferir no equilíbrio da Justiça.
O que se repete nesses episódios não é apenas a violência em si, mas a sensação recorrente de impunidade. Trata-se de uma formação que ultrapassa a escola formal e se consolida como uma educação de classe. Em determinados ambientes, a pobreza não é percebida como uma realidade social complexa, mas como paisagem, algo que se observa à distância, sem produzir empatia ou responsabilidade.
Nesse contexto, a educação, que deveria formar cidadãos críticos, frequentemente se limita à capacitação técnica e à reprodução de privilégios. Falha-se em construir valores básicos de alteridade. Em seu lugar, consolida-se uma lógica de hierarquia, na qual o prestígio financeiro substitui o caráter e a responsabilidade coletiva.
Parte dessa elite é formada sob a convicção, explícita ou não, de que as consequências não serão as mesmas para todos. A ideia de que relações familiares, influência política ou poder econômico podem suavizar ou contornar sanções cria um perigoso vácuo ético. Não se trata de regra absoluta, mas de um padrão recorrente o suficiente para moldar comportamentos.
A violência, nesse ambiente, também se manifesta de forma estrutural e cotidiana. Está presente em práticas de humilhação, em relações de poder desiguais e em dinâmicas sociais que naturalizam a inferiorização do outro. Ao mesmo tempo, observa-se uma contradição: setores que defendem rigor punitivo tendem a adotar uma linguagem mais branda quando os envolvidos pertencem aos seus próprios círculos.
A criminologia crítica ajuda a compreender essa assimetria. Jovens periféricos, quando envolvidos em infrações, são rapidamente enquadrados como ameaça e enfrentam a resposta mais dura do Estado. Já jovens de origem privilegiada costumam ser descritos como imaturos ou impulsivos, e seus atos, tratados como desvios pontuais. A diferença não está apenas na lei, mas na forma como ela é aplicada e interpretada.
As redes sociais intensificaram esse fenômeno. A exposição deixou de ser um risco e passou a ser parte do ato. Ao filmarem a agressão, os autores não apenas registram a violência, a transformam em conteúdo. Há, nisso, uma demonstração de pertencimento e de poder: a crença de que não haverá consequências reais.
As imagens que circularam em Belém não revelam apenas a crueldade de um episódio isolado. Elas expõem uma estrutura que desumaniza antes e se indigna depois. O problema não se encerra na ação de dois indivíduos, mas na cultura que permite que outros pensem e ajam da mesma forma.
A pergunta que permanece não é por que isso aconteceu, mas quantas vezes ainda será tolerado.



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