Inelegível, Antônio Doido tenta transferir capital político à esposa Andréa Dantas em meio a investigações e desgaste eleitoral
A inelegibilidade do deputado federal Antônio Leocádio dos Santos, conhecido como Antônio Doido (MDB-PA), abriu uma nova fase no tabuleiro político paraense. Alvo de decisão da Justiça Eleitoral que o tornou inelegível por oito anos, o parlamentar tenta reorganizar seu grupo político em torno da esposa, a empresária Andréa Dantas, apresentada como pré-candidata a deputada federal.
A movimentação ocorre após o Tribunal Regional Eleitoral do Pará manter, por 5 votos a 1, a condenação de Antônio Doido por abuso de poder político e econômico nas eleições municipais de 2024, em Ananindeua. A decisão confirmou sentença anterior da Justiça Eleitoral, que apontou o uso de ações públicas, emendas parlamentares, eventos e iniciativas associadas ao nome do deputado como instrumentos de promoção pessoal durante o período eleitoral. Com o julgamento, a inelegibilidade foi mantida pelo prazo de oito anos.
Eleito deputado federal em 2022 com 126.535 votos pelo Pará, Antônio Doido construiu uma base política expressiva no interior do estado e na Região Metropolitana de Belém. Agora, diante da barreira judicial, a estratégia aparente é preservar esse patrimônio eleitoral por meio de Andréa Dantas, que passou a aparecer ao lado do marido em agendas públicas e entrevistas. Nos últimos dias, a Rádio Guamá FM divulgou uma entrevista com Antônio Doido, Andréa Dantas e Neto Leocádio, em meio à movimentação do grupo para apresentar Andréa como nome competitivo para a Câmara dos Deputados.
Durante a participação, Antônio Doido falou sobre Andréa como pré-candidata a deputada federal e destacou a importância da representatividade feminina na política. A fala reforça a tentativa de apresentar a empresária como sucessora natural de seu projeto político, em um momento em que o deputado enfrenta dificuldades para viabilizar uma nova candidatura própria.
Na prática, a indicação de Andréa representa uma tentativa de continuidade política. Sem condições jurídicas seguras para disputar a reeleição, Antônio Doido busca manter sua estrutura eleitoral ativa e transferir para a esposa parte da força construída ao longo dos últimos anos. A aposta, no entanto, nasce cercada de controvérsias. Andréa Dantas também aparece no entorno de investigações que miram o grupo político e empresarial ligado ao deputado, especialmente a Operação Igapó, deflagada pela Polícia Federal com autorização do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal.
A operação apura suspeitas de desvio de verbas públicas, corrupção eleitoral, corrupção ativa e passiva, crimes licitatórios, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Segundo a Polícia Federal, o grupo investigado teria desviado recursos por meio de fraudes em licitações, com posterior uso dos valores para pagamento de vantagens indevidas e ocultação de patrimônio. A investigação ganhou força após a prisão de um policial militar ligado ao caso com quase R$ 5 milhões em espécie, sacados em uma agência bancária no Pará dois dias antes das eleições municipais de 2024.
Documentos e reportagens sobre a apuração apontam Antônio Doido como um dos principais alvos da investigação. A Polícia Federal sustenta que o esquema envolveria agentes públicos e privados e teria conexão com contratos públicos, emendas parlamentares e movimentações financeiras suspeitas. O caso aumentou o desgaste político do deputado e colocou sob maior pressão o grupo que agora tenta viabilizar a pré-candidatura de Andréa Dantas.
Além da Operação Igapó, Andréa também foi citada em outro episódio eleitoral. Em junho de 2025, reportagem do Portal O Fato, com base em decisão da Justiça Eleitoral da 41ª Zona de Ourém, informou que Andréa Costa Dantas, Neto Leocádio e outros envolvidos foram condenados por compra de votos.
Mesmo diante desse histórico, o grupo político de Antônio Doido tenta apresentar Andréa como herdeira de seu capital eleitoral. A narrativa é de continuidade: ela assumiria o espaço deixado pelo marido e manteria o vínculo com prefeitos, lideranças locais e eleitores que sustentaram o crescimento político do parlamentar nos últimos anos. Mas a pré-candidatura também carrega o peso das investigações, das decisões eleitorais e das dúvidas sobre a própria viabilidade jurídica e política do projeto.
O caso transforma a disputa de 2026 em um teste para a força eleitoral de Antônio Doido. Se, por um lado, a inelegibilidade dificulta sua presença direta nas urnas, por outro, a indicação da esposa mostra que o deputado tenta manter influência no jogo político paraense. O desafio, agora, será saber se Andréa Dantas conseguirá transformar a estrutura construída pelo marido em capital eleitoral próprio, em meio ao desgaste provocado pelas decisões da Justiça Eleitoral e pelas investigações que envolvem o casal.
Enquanto os recursos e as apurações seguem em andamento, Antônio Doido permanece no centro de uma disputa que ultrapassa sua candidatura individual. O que está em jogo é a sobrevivência de um grupo político que tenta se reorganizar diante da Justiça Eleitoral, da Polícia Federal e da pressão pública causada por escândalos que ainda prometem repercutir nas eleições deste ano.



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