18 de maio reacende alerta no Pará diante do aumento das denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes
O Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, lembrado neste 18 de maio, reacende o alerta para uma violência que continua atingindo milhares de vítimas no Brasil e no Pará. Instituída pela Lei Federal nº 9.970/2000, a data chega aos 26 anos como um marco de mobilização social diante de um problema que segue presente dentro das casas, das escolas, das redes sociais e dos territórios mais vulneráveis.
Os números recentes mostram a dimensão do cenário. Segundo o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, o Disque 100 registrou mais de 32,7 mil violações sexuais contra crianças e adolescentes entre janeiro e abril de 2026, crescimento de 49,48% em relação ao mesmo período do ano passado. No total, foram contabilizadas 116,8 mil denúncias e mais de 716 mil violações de direitos envolvendo crianças e adolescentes nos quatro primeiros meses do ano.
Dentro desse universo, cerca de 9 mil denúncias estavam relacionadas diretamente à violência sexual, incluindo abuso, estupro e exploração sexual.
Os dados da saúde pública também reforçam a gravidade do problema. Levantamento da Fundação Abrinq, com base no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), aponta que o Brasil registrou 59.887 notificações de violência sexual contra crianças e adolescentes em 2025. A Região Norte concentrou 7.733 desses casos.
No Pará, o cenário também preocupa. Dados divulgados pela Fundação Abrinq, a partir de informações organizadas pelo Coletivo Futuro Brilhante, mostram que o estado registrou mais de 19 mil crimes sexuais contra pessoas de 0 a 17 anos entre 2019 e 2023. Desse total, 8.437 vítimas eram crianças de até 11 anos, enquanto 11.194 eram adolescentes entre 12 e 17 anos.
O levantamento aponta ainda que a residência da vítima continua sendo o principal local onde a violência ocorre, reforçando que muitos casos acontecem dentro do próprio ambiente familiar.
Em Belém, os números também chamam atenção. Entre 2009 e 2021, 43% dos mais de 31 mil registros de violência contra crianças e adolescentes na capital envolveram violência sexual. Já nas regiões de Belém, Barcarena e Breves — áreas apontadas pelo estudo como parte da chamada “Rota dos Grãos” — foram registrados mais de 3,4 mil casos de crimes sexuais contra crianças e adolescentes entre 2019 e 2023.
Dados mais recentes da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Pará mostram que, apenas entre janeiro e março de 2026, foram registradas 408 ocorrências de abuso sexual infantil contra crianças de até 11 anos no estado, média de aproximadamente quatro casos por dia. Em 2024, o Pará registrou 2.163 casos; em 2025, foram 2.144.
Na rede municipal de assistência social de Belém, os atendimentos especializados também revelam a dimensão do problema. O Relatório Anual de Gestão da Prefeitura aponta que, em 2024, os Centros de Referência Especializados de Assistência Social atenderam 89 casos de abuso sexual contra crianças e adolescentes e um caso de exploração sexual. O documento ainda registra dezenas de ocorrências relacionadas à violência intrafamiliar, negligência e abandono.
Diante desse cenário, órgãos públicos intensificaram ações durante o Maio Laranja. O Ministério dos Direitos Humanos reforçou o funcionamento do Disque 100, canal gratuito, anônimo e disponível 24 horas por dia para denúncias de violações contra crianças e adolescentes.
No Pará, a Polícia Civil aderiu à Operação Caminhos Seguros, coordenada pelo Ministério da Justiça, com ações preventivas e repressivas voltadas ao combate aos crimes sexuais infantojuvenis. A operação inclui mutirões de inquéritos, capacitações sobre escuta protegida e ampliação do atendimento especializado em municípios do interior.
A Secretaria de Segurança Pública do Pará também promoveu ações de cidadania e conscientização na Usina da Paz do Bengui, em Belém, reunindo serviços de saúde, assistência social, vacinação, atendimento psicossocial e atividades educativas voltadas à prevenção da violência sexual infantil.
Nas escolas estaduais, o programa Escola Segura realizou palestras e atividades educativas em diferentes regiões do estado, envolvendo estudantes, professores e profissionais da rede pública.
Outro foco crescente de preocupação são os crimes praticados no ambiente digital. A Polícia Científica do Pará reforçou a importância das perícias de informática na identificação de conteúdos ilegais, rastreamento de arquivos e combate às redes de exploração sexual infantil na internet.
Especialistas e órgãos de proteção destacam que o enfrentamento à violência sexual infantil depende não apenas de investigação e punição, mas também de prevenção, informação e escuta qualificada. Sinais como isolamento, medo excessivo, queda no rendimento escolar, mudanças bruscas de comportamento, automutilação e sexualização precoce podem indicar situações de violência.
As denúncias podem ser feitas pelo Disque 100, Disque Denúncia 181, WhatsApp Iara no número (91) 98115-9181, Conselhos Tutelares, Delegacias Especializadas ou pela Polícia Militar, no 190, em situações de emergência.
Mais do que uma data simbólica, o 18 de maio reforça uma realidade que continua urgente no Pará e no Brasil: proteger crianças e adolescentes exige atuação integrada entre família, escola, saúde, assistência social, segurança pública, Ministério Público, Judiciário e sociedade civil.
Os números mostram que o problema não está distante. Ele atravessa bairros, comunidades, escolas e ambientes virtuais e continua crescendo sempre que o silêncio protege o agressor em vez da vítima.



COMENTÁRIOS