Prefeitura de Belém inicia obras do Novo Mata Fome após anos de atrasos e investigações
A assinatura da ordem de serviço para o início das obras do Novo Mata Fome, anunciada pelo prefeito de Igor Normando nesta segunda-feira (18), recolocou no centro do debate público um dos projetos mais aguardados, e também mais controversos, da infraestrutura urbana de Belém. A intervenção promete obras de drenagem, urbanização e recuperação ambiental em uma das áreas mais afetadas por alagamentos da capital paraense, mas chega cercada por atrasos, investigações, suspensão de licitação e cobranças da população por soluções concretas.
O projeto do canal do Mata Fome ganhou relevância estratégica ainda durante a preparação de Belém para sediar a COP 30. Em 2024, a Prefeitura apresentou o Programa de Macrodrenagem da Bacia Hidrográfica do Mata Fome (Prommaf) como uma das principais iniciativas estruturantes para enfrentar problemas históricos de enchentes, saneamento precário e degradação ambiental em bairros como Pratinha, Tapanã, Parque Verde e São Clemente.
A proposta prevê intervenções em mais de oito quilômetros de canais, além de melhorias urbanísticas, pavimentação, regularização fundiária e obras de saneamento. O objetivo central é reduzir os impactos dos alagamentos que há décadas afetam milhares de moradores da região.
O programa foi estruturado com financiamento internacional e recursos federais. O Fonplata, banco de desenvolvimento formado por países da Bacia do Prata, aprovou investimento de US$ 75 milhões para o projeto, sendo US$ 60 milhões financiados pela instituição e US$ 15 milhões como contrapartida local. Paralelamente, o Prommaf também foi contemplado pelo PAC Seleções, do governo federal, com aproximadamente R$ 132,7 milhões destinados a obras complementares.
A expectativa criada em torno do projeto, porém, acabou esbarrando em uma série de problemas administrativos e judiciais. Em outubro de 2025, a Polícia Federal deflagrou a Operação Óbolo de Caronte para investigar suspeitas de fraudes em licitações, desvios de recursos públicos e lavagem de dinheiro envolvendo contratos ligados à antiga Secretaria Municipal de Saneamento de Belém. Segundo a PF, empresas investigadas mantinham contratos que somavam cerca de R$ 153 milhões entre 2020 e 2024, incluindo contratos relacionados ao Projeto Mata Fome.
As investigações provocaram repercussão política e administrativa. O Tribunal de Contas dos Municípios do Pará suspendeu a licitação ligada ao projeto em janeiro de 2025, ampliando o atraso das intervenções e gerando incertezas sobre a continuidade das obras.
Enquanto os processos avançavam lentamente no campo burocrático e judicial, moradores continuavam convivendo com os efeitos cotidianos da precariedade urbana. Em períodos de chuva intensa, ruas alagadas, esgoto a céu aberto, acúmulo de lixo e perdas materiais permaneceram como parte da rotina de milhares de famílias da região.
O cenário ganhou ainda mais visibilidade em abril deste ano, quando fortes chuvas atingiram Belém. Em menos de 24 horas, a capital registrou mais de 150 milímetros de precipitação, deixando milhares de pessoas afetadas. O governo federal reconheceu situação de emergência no município, e uma das áreas apontadas como críticas foi justamente a bacia do Mata Fome.
Durante as ações emergenciais, equipes atuaram na desobstrução do canal, onde o acúmulo irregular de resíduos dificultava o escoamento da água e agravava os alagamentos.
A retomada do projeto ocorre agora após uma nova concorrência pública voltada à supervisão, fiscalização e apoio técnico do programa. A Concorrência Presencial nº 02/2026 teve como vencedor o Consórcio Assessor Técnico, formado pelas empresas Encibra S.A. Estudos e Projetos de Engenharia e HTBR Arquitetura e Engenharia Ltda., em contrato estimado em pouco mais de R$ 20 milhões.
Segundo a Prefeitura de Belém, a primeira etapa das obras deve alcançar inicialmente 17 ruas da bacia do Mata Fome, com intervenções de drenagem e urbanização. A previsão é que mais de 40 vias sejam contempladas gradualmente nas fases seguintes. Já a macrodrenagem estrutural do canal está prevista para começar apenas em 2027.
O caso do Mata Fome se transformou em símbolo de um problema maior enfrentado por Belém: a dificuldade histórica de combinar crescimento urbano, saneamento básico e planejamento ambiental em áreas vulneráveis da cidade. Em uma capital marcada por ocupações desordenadas e deficiência estrutural de drenagem, a execução da obra passou a representar não apenas uma intervenção de engenharia, mas um teste de capacidade administrativa e política.
A polêmica em torno do projeto, portanto, vai além dos atrasos. Ela envolve o contraste entre anúncios grandiosos associados à COP 30 e a realidade vivida diariamente por moradores que seguem enfrentando enchentes, perdas materiais, riscos sanitários e insegurança sempre que chove forte na cidade.
Agora, com a ordem de serviço assinada e a retomada oficial do projeto, cresce também a cobrança para que o Novo Mata Fome saia do campo das promessas e se transforme, de fato, em uma solução duradoura de infraestrutura, saneamento e adaptação climática para Belém.



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