Pará tem pior desempenho socioambiental do Brasil no IPS 2026; Belém fica em 21º entre as capitais


Pará tem pior desempenho socioambiental do Brasil no IPS 2026; Belém fica em 21º entre as capitais

    O Pará voltou a ocupar uma posição incômoda no retrato nacional da qualidade de vida. O Estado registrou o pior desempenho socioambiental do país no Índice de Progresso Social Brasil 2026, divulgado nesta quarta-feira (20). Na escala de 0 a 100, a média paraense foi de 55,80 pontos, colocando o Pará na 27ª e última posição entre as unidades federativas, atrás de Maranhão e Acre. O resultado contrasta com o discurso de desenvolvimento, grandes obras, mineração, logística, turismo e investimentos bilionários que marcam a imagem oficial do Estado nos últimos anos.

O IPS Brasil avalia os 5.570 municípios brasileiros a partir de 57 indicadores sociais e ambientais, organizados em três dimensões: Necessidades Humanas Básicas, Fundamentos do Bem-estar e Oportunidades. Diferente de rankings baseados apenas em renda ou Produto Interno Bruto, o índice mede se os serviços, políticas públicas e estruturas disponíveis chegam, de fato, à vida da população. Em outras palavras, o dado mostra menos o quanto se anuncia e mais o quanto se entrega.

O desempenho paraense é ainda mais grave quando se observa o ranking municipal. Das 20 cidades brasileiras com os piores índices de qualidade de vida, 11 estão no Pará. Entre elas aparecem Jacareacanga, Portel, Pacajá, Anapu, Uruará, Trairão, Bannach, São Félix do Xingu, Cumaru do Norte, Oeiras do Pará e Anajás. Jacareacanga, no sudoeste do Estado, teve nota 44,32 e ficou com o segundo pior resultado do Brasil, atrás apenas de Uiramutã, em Roraima.

Belém também aparece em posição desfavorável. A capital paraense ficou em 21º lugar entre as 27 capitais brasileiras, com 63,90 pontos. O resultado coloca Belém atrás de outras capitais da região Norte, como Palmas, Boa Vista e Manaus, e à frente apenas de Rio Branco, Recife, Salvador, Maceió, Macapá e Porto Velho. Curitiba lidera o ranking das capitais, com 71,29 pontos.

O número ajuda a explicar uma sensação comum entre moradores: a de que viver em Belém continua sendo um exercício diário de resistência. A cidade tem forte identidade cultural, gastronomia reconhecida, patrimônio histórico e papel estratégico na Amazônia, mas enfrenta problemas antigos que pesam diretamente na qualidade de vida, como alagamentos, saneamento precário, mobilidade difícil, desigualdade entre bairros, insegurança, baixa inclusão social e acesso desigual a serviços públicos.

Um dos gargalos mais evidentes é o saneamento. Segundo dados do Instituto Água e Saneamento, com base no SINISA 2024, apenas 25,3% da população de Belém tem acesso aos serviços públicos de esgotamento sanitário. O índice está acima da média estadual, de 19,1%, mas muito abaixo da média nacional, de 62,3%.

Esse déficit se conecta diretamente a outra crítica recorrente da população: os alagamentos. Reportagem da InfoAmazonia apontou que cerca de 10% da população de Belém vive em áreas sob risco de desastres hidrogeológicos, como inundações, alagamentos, deslizamentos e erosão. O levantamento também destaca que bairros cresceram de forma desordenada às margens de rios e canais, sem infraestrutura adequada, acumulando problemas de drenagem, lixo, ocupação irregular e ausência histórica de saneamento.

Nos últimos anos, obras de macrodrenagem e saneamento passaram a ser apresentadas como parte do legado da COP30, realizada em Belém em 2025. O governo estadual cita intervenções como a Estação de Tratamento de Esgoto do Una, obras no Ver-o-Peso, redes coletoras e sistemas nas bacias do Tucunduba, Tamandaré e Una. Mas o dado do IPS mostra que, apesar dos investimentos e da propaganda institucional, a transformação ainda não se consolidou em resultado amplo para a população.

A contradição é justamente o ponto central do ranking. O Pará é estratégico para o Brasil, concentra riquezas naturais, grandes projetos econômicos e protagonismo ambiental, mas segue com indicadores sociais frágeis. No interior, a distância dos centros urbanos, a baixa presença do Estado, a pressão do desmatamento, os conflitos territoriais, a precariedade de serviços e a dificuldade de acesso a saúde, educação e infraestrutura ajudam a explicar por que tantos municípios paraenses aparecem entre os piores do país.

Em Belém, o problema ganha outra face. A capital concentra serviços, universidades, hospitais, comércio e investimentos, mas ainda convive com uma cidade partida. De um lado, áreas centrais com maior infraestrutura, valorização imobiliária e equipamentos públicos; de outro, periferias e baixadas marcadas por ruas alagadas, canais poluídos, transporte deficiente e moradias vulneráveis. A capital vive um contraste entre belezas naturais e desafios urbanos profundos, com falta de saneamento, custo de vida elevado e crise habitacional.

O IPS 2026 também mostra que o problema não é isolado. A média nacional ficou em 63,40 pontos, com melhor desempenho em Necessidades Humanas Básicas e pior resultado na dimensão Oportunidades, que inclui temas como direitos individuais, inclusão social e acesso à educação superior. O relatório aponta ainda que estados da Amazônia Legal enfrentam baixo desempenho em qualidade ambiental, influenciado por desmatamento, emissões, focos de calor e vulnerabilidade climática.

No caso do Pará, o último lugar no ranking funciona como um alerta político e social. Os dados reforçam o debate sobre a necessidade de que desenvolvimento seja acompanhado por melhora concreta na qualidade de vida da população. Qualidade de vida se mede na torneira com água, na rua que não alaga, no ônibus que chega, no posto de saúde que atende, na escola que mantém o aluno, na segurança do bairro e na oportunidade real para a população melhorar de vida.

O resultado do IPS Brasil 2026, portanto, escancara uma cobrança: o Pará precisa transformar sua importância econômica e ambiental em bem-estar concreto. Enquanto isso não acontecer, o Estado seguirá convivendo com um paradoxo difícil de ignorar: ser apresentado como vitrine da Amazônia para o mundo enquanto ainda enfrenta alguns dos piores indicadores de qualidade de vida do país.




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