Perfis criados por IA fingem ser pessoas reais para falar de política no Brasil


Perfis criados por IA fingem ser pessoas reais para falar de política no Brasil

    Um levantamento do Observatório IA nas Eleições identificou 18 casos de personagens criados por inteligência artificial usados para comentar política no Brasil. A preocupação principal é que, na maioria dos casos, o público não era avisado de que estava vendo um conteúdo feito por IA. Segundo o estudo, em 61% das ocorrências não havia qualquer sinalização sobre o uso da tecnologia.

Esses perfis funcionam como se fossem influenciadores comuns. Eles aparecem com nome, rosto, voz, opinião e até uma rotina própria, como se fossem pessoas reais indignadas, apoiadoras ou críticas de determinado grupo político. Na prática, porém, podem ser personagens fabricados para tentar convencer o eleitor de que determinada opinião está vindo de uma pessoa comum.

O caso mais conhecido é o da chamada “Dona Maria”, personagem criada por IA que passou a circular nas redes com vídeos de teor político. De acordo com o levantamento, o perfil foi localizado em agosto de 2025 no X, antigo Twitter, e depois passou a aparecer também em outras plataformas, acumulando mais de 400 vídeos.

O estudo aponta ainda que 78% dos casos analisados espalharam alegações enganosas contra políticos ou instituições democráticas. As redes onde mais apareceram esses perfis foram TikTok e Instagram, com seis casos em cada uma, seguidas pelo YouTube, com três registros. Também foram encontrados conteúdos no X, Kwai e Facebook.

O problema vai além de uma imagem falsa ou de um vídeo manipulado. A novidade, segundo o Observatório, é a criação de personagens inteiros, com aparência humana e discurso planejado para circular no debate político. Isso torna mais difícil para o eleitor perceber se está diante de uma opinião espontânea ou de uma peça montada para influenciar a conversa pública.

A discussão ganha força às vésperas das eleições gerais de 2026. O Tribunal Superior Eleitoral já aprovou regras para o uso de inteligência artificial na campanha, incluindo a obrigação de identificar conteúdos produzidos por IA e a criação de canais de denúncia junto às plataformas digitais.

Pelas normas do TSE, todo conteúdo de propaganda eleitoral criado ou alterado por inteligência artificial deve trazer um aviso claro, visível e fácil de entender. A intenção é evitar que eleitores sejam enganados por montagens, vozes, imagens ou personagens que pareçam reais, mas que foram produzidos artificialmente.

Especialistas veem esse tipo de prática como um desafio para a confiança do eleitor. Quando um perfil artificial se apresenta como cidadão comum, o público pode ser levado a acreditar que aquela mensagem representa uma manifestação espontânea da sociedade. Por isso, a transparência passou a ser uma das principais cobranças: o eleitor precisa saber quando está vendo uma pessoa real e quando está diante de um conteúdo criado por máquina.

Com a campanha eleitoral se aproximando, o alerta é simples: nem todo rosto que aparece nas redes existe de verdade. A recomendação para o público é desconfiar de perfis recém-criados, vídeos muito repetitivos, personagens que publicam em grande volume e conteúdos políticos sem identificação clara sobre o uso de inteligência artificial. O avanço da tecnologia não torna o debate político automaticamente falso, mas exige mais cuidado de quem produz, de quem compartilha e de quem consome informação.




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