Casa no Ceará e milhões em emendas: o que Alessandra Haber ainda não explicou.
Em Brasília, a trajetória da deputada federal Dra. Alessandra Haber (Podemos-PA) tem evidenciado um descompasso entre o expressivo capital eleitoral e a atuação parlamentar. Eleita como a mulher mais votada do Pará em 2022 pelo MDB, com mais de 258 mil votos, a médica chega à segunda metade do mandato com presença considerada discreta no Congresso Nacional.
Nos bastidores políticos, a avaliação recorrente é de que o mandato tem priorizado a destinação de recursos a municípios paraenses. A estratégia, segundo analistas, estaria alinhada à construção política do ex-prefeito de Ananindeua, Dr. Daniel Santos, marido da parlamentar e pré-candidato ao Governo do Pará em 2026.
A liberação de emendas parlamentares tornou-se o principal eixo da atuação. A destinação de recursos, especialmente por meio das chamadas transferências especiais, conhecidas como “emendas Pix”, tem sido direcionada a prefeituras do interior. Embora o mecanismo seja legal, ele é alvo frequente de críticas pela baixa transparência na aplicação dos valores.
Analistas apontam que essa dinâmica fortalece alianças locais e amplia a base política em diferentes regiões do estado. Ao mesmo tempo, reforça a percepção de um mandato mais voltado à articulação regional do que ao protagonismo legislativo em pautas nacionais.
Quando participa de votações relevantes, a deputada acumula posicionamentos que geraram repercussão. Um dos episódios mais criticados foi o voto favorável à Proposta de Emenda à Constituição nº 3/2021, conhecida como “PEC da Blindagem”, que previa regras mais rígidas para investigações contra parlamentares.
Em outro momento, diante da pressão popular nas redes sociais, Alessandra Haber manifestou apoio ao fim da escala de trabalho 6x1, assinando proposta sobre o tema, movimento interpretado como um aceno a pautas de maior apelo social.
Nos últimos meses, porém, o foco sobre o mandato se deslocou para o campo investigativo. A deputada passou a ser citada em apurações conduzidas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público do Pará envolvendo a destinação de recursos públicos.
Reportagens investigativas apontam indícios de possível relação entre emendas parlamentares destinadas ao Pará e movimentações financeiras envolvendo empresas contratadas pelo poder público municipal. Entre os pontos apurados está a aquisição de um imóvel de alto padrão no município de Fortim, no Ceará, registrado em nome da deputada e de seu marido. Segundo as investigações, o imóvel teria sido quitado por terceiros, incluindo pessoas físicas e empresas que mantinham contratos com a Prefeitura de Ananindeua durante a gestão de Daniel Santos.
A apuração indica ainda que parte desses pagamentos ocorreu em datas próximas a repasses feitos pela prefeitura a empresas contratadas, algumas delas beneficiadas por recursos oriundos de emendas parlamentares. Em um dos casos citados, uma empreiteira que recebeu valores por serviços urbanos teria realizado transferência para a empresa responsável pelo imóvel no mesmo dia do pagamento público.
Outras empresas fornecedoras do município também aparecem nas investigações, com registros de transferências vinculadas ao pagamento do imóvel após o recebimento de recursos da administração municipal. O caso segue sob análise das autoridades, que apuram a eventual existência de irregularidades no fluxo financeiro.
A investigação chegou a ser questionada judicialmente, mas decisão do ministro Alexandre de Moraes determinou a continuidade do processo na Justiça do Pará.
O avanço das apurações impactou o cenário político local. Até então, Daniel Santos vinha consolidando sua imagem como potencial candidato ao governo estadual. Com a repercussão do caso, aliados passaram a adotar cautela e reavaliar estratégias.
Diante desse contexto, o mandato de Alessandra Haber passa a ser observado sob dois eixos: a atuação parlamentar considerada limitada e as investigações que apuram o uso de recursos públicos.
Diante de um cenário tão espinhoso, a parlamentar mais votada do Pará se vê encurralada entre a necessidade de sobrevivência jurídica e o esforço desesperado para manter de pé o castelo de cartas de seu grupo político. Resta saber se os bilhões em emendas pulverizados pelas prefeituras do interior serão suficientes para sustentar a candidatura de seu marido ou se os desdobramentos das investigações colocarão um ponto final na ambição do casal.
O cenário atual entrega um questionamento cristalino e incontornável ao eleitor paraense: o expressivo mandato outorgado pelas urnas cumpre o seu papel republicano, ou tornou-se apenas um mero despachante de verbas para subsidiar confortos e projetos de uma única família?



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