Salinópolis avança no turismo, mas saneamento expõe contraste entre orla valorizada e infraestrutura básica
A poucos metros das praias que transformaram Salinópolis em um dos destinos mais disputados do litoral amazônico, a realidade da infraestrutura básica ainda está distante do padrão vendido ao turista. Enquanto o município avança com resorts, passarelas urbanas e forte valorização imobiliária, os dados mais recentes de saneamento revelam gargalos persistentes em abastecimento de água, esgoto e drenagem, serviços essenciais para quem vive na cidade o ano inteiro.
Conhecida como Salinas, a cidade consolidou sua imagem como vitrine turística do Pará, sobretudo em áreas como a Praia do Atalaia e a Orla do Maçarico. Fora desse eixo valorizado, porém, indicadores públicos mostram que o crescimento urbano não foi acompanhado, na mesma velocidade, por investimentos estruturais.
Levantamento com base em dados recentes aponta que 89,2% da população é atendida por abastecimento de água, percentual acima da média estadual (51,6%) e também superior à nacional (83,1%). Ainda assim, cerca de 4.871 moradores seguem sem acesso ao serviço.
No esgotamento sanitário, o cenário é ainda mais crítico. O Plano Regional de Saneamento Básico do Pará aponta índice de atendimento urbano igual a zero, evidenciando a ausência de uma rede estruturada no município.
A falta de dados também se estende à drenagem urbana. Salinópolis não apresentou informações completas sobre o sistema e não possui mapeamento de áreas de risco de inundação, plano diretor de drenagem, sistema de alerta para alagamentos nem cadastro técnico das redes existentes.
Na prática, isso reduz a capacidade de planejamento e amplia a vulnerabilidade a eventos extremos, como chuvas intensas, um problema recorrente em cidades costeiras.
Esse cenário contrasta diretamente com o volume de investimentos voltados ao turismo. Nos últimos anos, o município passou por uma transformação acelerada, impulsionada por empreendimentos imobiliários e equipamentos de lazer. A expansão de resorts e a instalação de atrações como o Aqualand consolidaram a região como um dos principais polos turísticos do estado.
O poder público também tem direcionado recursos para áreas de visitação. Entre 2024 e 2025, foram entregues passarelas urbanas na Orla do Maçarico, com estrutura que inclui iluminação em LED, ciclovias, quiosques, acessibilidade e espaços de contemplação.
Estudo apresentado no Simpósio Nacional de Geomorfologia de 2025 analisou esse processo de litoralização na Ilha do Atalaia e relacionou a expansão de empreendimentos de alto padrão à valorização imobiliária, à pressão sobre recursos hídricos e ecossistemas costeiros, além do aumento da segregação socioespacial. A pesquisa descreve a região como composta por planícies de maré, manguezais e campos de dunas, ambientes naturalmente sensíveis à ocupação urbana acelerada.
O cenário coloca Salinópolis diante de uma questão estrutural: como sustentar uma economia turística de alto padrão sem garantir, na mesma velocidade, saneamento, drenagem e infraestrutura para a população fixa?
Em um país onde milhões ainda vivem sem acesso adequado a água e esgoto, o caso de Salinópolis evidencia como o saneamento segue sendo decisivo não apenas para a saúde pública, mas também para o desenvolvimento urbano sustentável.
A cidade que se projeta como destino turístico de alto padrão ainda precisa avançar naquilo que não aparece nas imagens promocionais: redes de esgoto, sistemas de drenagem e eficiência no abastecimento. Sem esses pilares, o contraste entre a orla valorizada e a realidade de quem vive fora da vitrine tende a se aprofundar.



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