Mensagens de Vorcaro ampliam investigação sobre Moraes.

Relatório da PF reúne mensagens, contratos e registros sobre contatos com Moraes, pagamentos ao escritório de sua esposa e benefícios envolvendo aeronaves.

Polícia Federal/Estadão/Gazeta do Povo/Metrópoles /SBT News.
Mensagens de Vorcaro ampliam investigação sobre Moraes. Reprodução/ Redes Sociais

A investigação da Polícia Federal (PF) sobre o Banco Master ganhou novos elementos após a retirada do sigilo de documentos da Operação Compliance Zero. O material, obtido a partir de dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do banco, reúne mensagens, contratos e registros que apontam para uma relação próxima entre o empresário e pessoas ligadas ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Entre os elementos estão conversas com um contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”, pagamentos milionários ao escritório Barci de Moraes, de propriedade de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, além de tratativas envolvendo cartões de crédito destinados aos filhos de Moraes e participações em aeronaves.


O conteúdo foi tornado público após decisão do ministro André Mendonça, relator do caso no STF. A PF, porém, ressalta que o nome salvo no celular, isoladamente, não comprova a identidade do titular do número. A identificação teria ocorrido a partir do cruzamento de diferentes informações obtidas durante a perícia.

Contrato de R$ 3 milhões mensais

Um dos principais pontos envolve um contrato entre o Banco Master e o escritório Barci de Moraes. Segundo a PF, o acordo previa 36 pagamentos mensais de R$ 3 milhões, totalizando R$ 108 milhões. Outros documentos citados na investigação apontam que o valor global teria chegado a aproximadamente R$ 131,2 milhões.

Mensagens atribuídas a Vorcaro mostram cobranças internas para que os pagamentos fossem realizados. Em março de 2024, após uma parcela não ser paga, o banqueiro cobrou um funcionário e classificou o acordo como um dos contratos mais importantes do banco.

A PF também encontrou comprovante de uma transferência de aproximadamente R$ 3,4 milhões para uma conta jurídica vinculada ao escritório.


Pedido para recolher o contrato

Em 1º de abril de 2025, Vorcaro teria questionado um diretor financeiro sobre onde estava o contrato com o escritório Barci de Moraes. Segundo as mensagens, o banqueiro demonstrou preocupação com o acesso ao documento e pediu que ele fosse recolhido.

Para a PF, as conversas demonstram preocupação com a circulação e o acesso ao contrato que previa os pagamentos.

Cartões de crédito de R$ 300 mil

A investigação também identificou a emissão de cartões do Banco Master para Alexandre e Giuliana Barci de Moraes, filhos do ministro.

Segundo as mensagens, o pedido teria partido de um funcionário do escritório de Viviane Barci de Moraes. Vorcaro autorizou a operação, com limite de R$ 300 mil para cada cartão.


O escritório confirmou a emissão, mas afirmou que os cartões nunca foram utilizados por advogados ou pessoas ligadas à banca.

Pagamentos represados

Em julho de 2025, um funcionário do setor financeiro informou a Vorcaro que havia cerca de R$ 40 milhões em pagamentos represados. Ao autorizar um lote de aproximadamente R$ 15 milhões, o banqueiro determinou que o escritório Barci de Moraes fosse incluído.

O episódio é apontado na investigação como mais um registro da prioridade dada aos pagamentos destinados ao escritório.

Aeronaves e contrato de aproximadamente R$ 50 milhões

Outro núcleo envolve aeronaves. Documentos indicam que, em maio de 2025, a Viking Participações, holding ligada a Vorcaro, firmou um contrato de aproximadamente R$ 50 milhões com o escritório Barci de Moraes.

A operação previa a cessão de participações relacionadas a um jato Legacy 650, de matrícula PP-NLR, e a um helicóptero Airbus EC155.

Mensagens também registram questionamentos de Vorcaro sobre o uso das aeronaves por pessoas ligadas à família de Moraes. Segundo o material, a resposta foi de que “já usaram aviões e helicópteros”.

Um advogado de Vorcaro teria demonstrado preocupação com possíveis alterações na estrutura do acordo e mencionado risco reputacional.

Moraes teria participado da revisão de contrato

Outro ponto citado pela investigação é a indicação de que Alexandre de Moraes teria participado da revisão do contrato firmado entre o Banco Master e o escritório de sua esposa.

Segundo o material, mensagens internas apontariam alterações feitas pelo ministro no texto do acordo. A eventual participação de Moraes na negociação ou revisão de um contrato comercial envolvendo o escritório de sua esposa deverá ser analisada pelas autoridades para verificar eventual relevância jurídica ou conflito de interesses.

187 interações com contato atribuído a Moraes

A perícia no celular de Vorcaro identificou 187 interações com um contato registrado como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. As conversas remontariam, pelo menos, a 2023 e fariam referência a encontros, compromissos e viagens ao exterior.

A PF identificou ainda seis referências a possíveis encontros presenciais.

Os investigadores ressaltam que o nome salvo no aparelho não seria suficiente, sozinho, para comprovar a identidade do usuário. A conclusão teria considerado outros dados obtidos na perícia.

Parte das comunicações também foi feita por meio de capturas de tela e mensagens de visualização única. Cinco mensagens enviadas ao contato antes da prisão de Vorcaro não tiveram o conteúdo recuperado.

Pedidos de ajuda durante a investigação

Entre outubro e novembro de 2025, Vorcaro teria procurado o contato atribuído a Moraes em pelo menos três ocasiões, durante dificuldades enfrentadas pelo Banco Master.

Em uma das mensagens, escreveu: “Pelo amor de Deus, veja se você consegue bloquear toda maldade”.


As respostas atribuídas ao contato foram enviadas em formato de visualização única e não puderam ser recuperadas. Por isso, o teor dessas respostas não pode ser estabelecido a partir do material divulgado.

Fábio Faria aparece nas comunicações

O relatório também cita o ex-ministro Fábio Faria em comunicações envolvendo Vorcaro e o contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”.

Um dos episódios ocorreu em dezembro de 2023, quando Faria teria solicitado informações sobre veículos que seriam utilizados para facilitar a chegada e a segurança de autoridades. Vorcaro teria respondido com informações sobre uma Range Rover.

A PF considera o episódio um dos elementos utilizados para reconstruir a possível relação entre os envolvidos.

Visita a Campos do Jordão

Outro conjunto de mensagens trata de uma visita atribuída a Moraes a Campos do Jordão, em São Paulo, em 30 de dezembro de 2023.

Segundo a investigação, Vorcaro orientou funcionários sobre a recepção dos convidados e determinou uma estrutura especial. As mensagens mencionam ainda um cantor, cavalos e a participação de um chef de cozinha, que posteriormente teria feito uma fotografia com “o ministro”.

Os registros são considerados pela PF na reconstrução da relação entre Vorcaro e pessoas ligadas ao magistrado.

Contexto da investigação

Os documentos fazem parte da investigação sobre o Banco Master e de uma suposta rede de influência atribuída a Vorcaro.

Ao retirar o sigilo, André Mendonça destacou a necessidade de análise técnica e jurídica dos elementos. Segundo o ministro, as informações indicariam uma estrutura com potencial acesso a informações sigilosas e capacidade de influência em diferentes instituições.

A investigação busca esclarecer se essa estrutura teria sido utilizada para defender interesses do grupo empresarial ou dificultar ações de fiscalização e investigação.

É importante destacar que a existência de mensagens, contratos ou contatos não comprova, por si só, a prática de crimes por Alexandre de Moraes, sua esposa ou qualquer outra pessoa citada.

Reação no Senado

A divulgação dos documentos provocou reação política. Em 1º de setembro, o senador Carlos Viana (PSD-MG) anunciou um novo pedido de impeachment contra Alexandre de Moraes e defendeu que o ministro seja ouvido pelo Senado.

Viana também pediu o afastamento de Moraes durante a apuração. As declarações representam uma reação política à divulgação dos documentos e não uma conclusão jurídica sobre os fatos investigados.

OAB pede apuração

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) afirmou estar preocupada com a crise institucional provocada pela divulgação das informações e defendeu uma investigação rigorosa e independente.

A entidade também destacou a necessidade de respeito ao devido processo legal, à ampla defesa e à presunção de inocência.

A presença desses elementos não significa automaticamente a existência de ilícitos. A autenticidade e o contexto completo das comunicações, eventual existência de contrapartidas e a responsabilidade individual de cada envolvido ainda dependem da continuidade das investigações e da análise das autoridades competentes.




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