Entre obras bilionárias e espaços vazios: o desafio da Nova Doca e do Parque da Cidade após a COP30


Entre obras bilionárias e espaços vazios: o desafio da Nova Doca e do Parque da Cidade após a COP30

Entre obras bilionárias e espaços vazios: o desafio da Nova Doca e do Parque da Cidade após a COP30

O contraste é imediato. Apenas cinco meses depois de Belém sediar a COP30 e se projetar como centro das discussões climáticas globais, o legado físico deixado à cidade já apresenta sinais evidentes de desgaste. O que foi anunciado como o início de uma nova fase do urbanismo amazônico hoje se traduz em um desafio concreto de gestão pública.

A Nova Doca, oficialmente Parque Linear da Doca, e o Parque da Cidade, dois dos principais projetos inaugurados em 2025, passaram de vitrines institucionais a espaços marcados por subutilização, falhas estruturais e deficiência na manutenção. Em vez de polos ativos de convivência e dinamização econômica, há o risco de que se tornem símbolos de um planejamento voltado mais à exposição internacional do que ao uso cotidiano da população.

Para dimensionar o problema, é preciso retomar o período que antecedeu a COP30. Entre 2024 e 2025, Belém viveu uma intensa transformação urbana, impulsionada por investimentos superiores a R$ 7 bilhões em infraestrutura, mobilidade e saneamento. Dentro desse pacote, a Nova Doca e o Parque da Cidade foram apresentados como os principais legados.

O Parque da Cidade, construído na área do antigo Aeroclube, recebeu cerca de R$ 980 milhões. O projeto foi divulgado como o maior parque ambiental urbano da Amazônia, com promessa de ampliar áreas verdes, estimular o turismo e fomentar a bioeconomia. A expectativa era de um espaço público democrático, com infraestrutura de alto padrão e uso contínuo pela população.

Já a Nova Doca concentrou investimentos de R$ 312 milhões para requalificar 1,2 quilômetro do canal da avenida Visconde de Souza Franco. A proposta incluía melhorias na drenagem, redução do despejo irregular de esgoto e a criação de áreas de convivência com ciclovias, quiosques e equipamentos esportivos. À época, foi apresentada como um símbolo moderno e sustentável da cidade.

A realidade observada em abril de 2026, no entanto, está distante dessas projeções. No Parque da Cidade, a baixa circulação de visitantes chama atenção, sobretudo em dias úteis. Grandes áreas permanecem vazias, enquanto o paisagismo recente já apresenta sinais de desgaste por falta de irrigação adequada ao clima equatorial. Há registros de banheiros fechados por problemas hidráulicos e equipamentos sem funcionamento.

Na Nova Doca, os problemas são ainda mais visíveis. As chuvas intensas de março expuseram fragilidades no sistema de drenagem, com pontos de alagamento que transformaram trechos do parque em áreas inundadas. A situação afetou o trânsito, aumentou o risco sanitário e evidenciou falhas estruturais em uma obra recém-entregue.

Além disso, há sinais de deterioração precoce: pisos intertravados se soltam, o acúmulo de lixo se repete em alguns pontos e o monitoramento de segurança é considerado insuficiente por frequentadores. Os quiosques comerciais, que deveriam impulsionar a economia local, operam com baixa ocupação.

O próprio desenho urbano também influencia. Áreas extensas de concreto, com pouca arborização adulta, reduzem o conforto térmico e limitam a permanência de usuários ao início da manhã e ao fim da tarde. Esse fator, somado à baixa ocupação, reforça a sensação de insegurança e afasta ainda mais o público.

A situação revela um problema recorrente na administração pública brasileira: a falta de integração entre investimento em obras e planejamento de manutenção. Enquanto a construção contou com recursos robustos, a conservação cotidiana depende de estruturas administrativas fragmentadas, com limitações orçamentárias e operacionais.

Em Belém, o desafio passa por uma mudança de abordagem. A fase de entrega de obras ficou para trás; agora, a prioridade deve ser a gestão eficiente dos ativos urbanos. Entre as alternativas discutidas estão a criação de uma governança unificada, parcerias para manutenção e a implementação de uma agenda permanente de atividades que estimule a ocupação dos espaços.

A COP30 trouxe visibilidade internacional e recursos significativos para a cidade. No entanto, o sucesso desse legado não depende apenas da dimensão das obras, mas da capacidade de mantê-las vivas no cotidiano. A frequência com que esses espaços são utilizados será o verdadeiro indicador de sua relevância.

A situação da Nova Doca e do Parque da Cidade funciona como um alerta. Construir é apenas a primeira etapa. Sem uso, manutenção e pertencimento, o investimento perde sentido. Belém ainda tem tempo para corrigir a rota, mas o legado da COP30 será medido, no fim, não pelo concreto entregue, e sim pela vida que esses espaços forem capazes de sustentar.




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