Quando o Dia das Mães também é luta: mães de jovens mortos pela violência transformam luto em cobrança por justiça
Neste Dia das Mães, a data que costuma ser marcada por homenagens, afeto e presença também carrega, para muitas mulheres, o peso de uma ausência definitiva. No Pará, mães que perderam filhos vítimas da violência seguem vivendo entre a saudade e a cobrança por respostas. Para elas, a maternidade não terminou com a morte dos filhos: mudou de forma. Tornou-se denúncia, memória e luta por justiça.
Entre essas mães estão Suzana Amaral, mãe de Márcio dos Santos Rodrigues, o Marcinho, e Sueidy Pena, mãe de Davi Silva. As duas histórias, separadas por quase uma década, se encontram no mesmo ponto: a perda de jovens que, segundo as famílias, tiveram suas trajetórias reduzidas à violência do caso que os vitimou. Por isso, antes de falar dos processos, das denúncias e da busca por responsabilização, elas insistem em dizer quem eram seus filhos.
Márcio dos Santos Rodrigues foi uma das vítimas da Chacina de Belém, ocorrida entre os dias 4 e 5 de novembro de 2014, após a morte do cabo PM Antônio Marcos da Silva Figueiredo, conhecido como cabo Pety. Registros públicos apontam que 11 pessoas foram assassinadas em bairros periféricos da capital paraense e da Região Metropolitana, em uma sequência de mortes que levou à criação da CPI das Milícias na Assembleia Legislativa do Pará. O Tribunal de Justiça do Pará chegou a registrar que a chacina era marcada pela impunidade e que as famílias seguiam sem respostas sobre os responsáveis.
Para Suzana, no entanto, Marcinho nunca foi apenas o nome de uma vítima. Era um jovem ligado à cultura de aparelhagem, ao futebol, à periferia e ao sonho de construir o próprio caminho. “Meu filho Márcio era um menino extremamente sonhador, extremamente alegre, extremamente solidário e muito afetuoso”, lembra. Ela conta que o filho gostava de tecnomelody, promovia festivais de futebol e sonhava em trabalhar com gastronomia, influenciado pela relação da família com a pesca e com o Marajó. “Quando ele morreu, ele já estava na faculdade de gastronomia”, diz Suzana.
A morte do filho rompeu a vida de Suzana de forma definitiva. Ela diz que, 24 horas depois da notícia, também morreu uma parte dela. “A Suzana que no dia 5 de novembro, às 2 horas da manhã, soube que o seu filho tinha sido morto, morreu junto com ele.” Sem saber por onde começar, ela passou a procurar outras mães que também haviam perdido filhos naquela sequência de assassinatos. Foi nesse encontro que o luto se transformou em movimento.
O caso de Márcio, segundo Suzana, foi arquivado por falta de autoria. Reportagem do Brasil de Fato também registrou que, em 2016, ela recebeu a notícia do pedido de arquivamento da investigação, sob a alegação de ausência de provas sobre a autoria do assassinato. Desde então, a luta de Suzana passou a ultrapassar o caso individual do filho e se tornou uma atuação coletiva em defesa de jovens das periferias.
Dessa dor nasceu o Instituto Marcinho Megas Kamaradas, criado para manter viva a memória do jovem e apoiar outras famílias atingidas pela violência. “Hoje é esse trabalho que me move, hoje é o trabalho que ele deixou”, afirma Suzana. “Ele plantou amor no coração de muitos jovens. E foi aonde ele se juntou com vários jovens e formou os Megas Kamaradas.” Para ela, lutar é também uma forma de continuar protegendo o que o filho representava. “O meu único mecanismo de luta é o amor pelo meu filho, é o amor por tudo que ele deixou.”
Quase nove anos depois da morte de Marcinho, outra mãe passou a enfrentar uma dor semelhante. Davi Silva tinha 16 anos quando morreu durante uma abordagem policial em Ananindeua, em 25 de outubro de 2023. De acordo com o Ministério Público do Estado do Pará, quatro policiais militares do 30º Batalhão foram denunciados em abril de 2024 por homicídio qualificado e cooperação dolosa contra o adolescente. A denúncia apontou que, conforme elementos do inquérito, Davi estaria desarmado e já rendido quando teria recebido novos disparos.
A versão apresentada inicialmente pelos policiais foi a de que o adolescente estaria envolvido em um suposto assalto e teria apontado uma arma em direção à viatura. O MPPA, porém, informou que imagens, vídeos e depoimentos de testemunhas indicavam contradições nessa versão. Segundo o órgão, o laudo de necropsia apontou cinco perfurações por projétil de arma de fogo.
Para Sueidy Pena, antes de qualquer acusação, Davi era um filho amado. “Um menino feliz, intenso, emotivo, muito respeitador, amável, manso, filho muito amado. Um garoto que sonhava e buscava encontrar seu lugar na sociedade. Amava o esporte, e chegou a ser campeão do jiu-jitsu com pelo menos 11 medalhas.” A lembrança que ela deseja preservar não é a da violência, mas a do carinho. “A lembrança mais marcante do Davi, para as pessoas é o respeito e carinho que ele as tratava, e claro, o sorriso largo de um garoto simples.”
A ausência do filho, diz Sueidy, alterou tudo ao redor. A casa, a rotina e as pessoas continuaram existindo, mas a forma de olhar para o mundo nunca mais foi a mesma. “Tudo mudou! As coisas e as pessoas continuam as mesmas, mas a forma como eu enxergo agora é muito diferente, não consigo explicar, porque é devastador, doloroso, triste...” A força, segundo ela, vem da culpa por não ter conseguido proteger o filho e do desejo de mostrar às filhas que continuará lutando. “A força vem do sentido de cuidar do meu filho, apesar dele não estar mais aqui fisicamente.”
As histórias de Suzana e Sueidy fazem parte de um cenário mais amplo de violência que atinge, de forma desproporcional, jovens negros e periféricos no Brasil. O Atlas da Violência 2025, elaborado pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, apontou que uma pessoa negra tinha, em 2023, risco 2,7 vezes maior de ser vítima de homicídio do que uma pessoa não negra. Já o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025 registrou que, em 2024, 82% das pessoas mortas pelas polícias no país eram negras.
É nesse contexto que as duas mães cobram não apenas punição nos casos dos filhos, mas mudanças que impeçam outras famílias de viverem a mesma dor. Suzana fala em uma política pública que comece pela forma de abordagem policial e por uma atuação mais cidadã do Estado. Sueidy espera que a Justiça aconteça e que as autoridades sejam honestas diante do caso do filho. “Que os policiais vivam o suficiente para pagarem pelo que causaram a todos nós, que a Justiça aconteça”, afirma.
Para essas mães, o Dia das Mães não apaga a saudade. Ao contrário, torna mais evidente a cadeira vazia, a voz que não chama mais pela casa, o abraço que não chega. Mas também reforça a dimensão da luta que elas assumiram. Suzana resume essa permanência como resistência. “Nós ainda estamos vivos porque somos resistência, viemos de um povo lutador, sofrido e resistente.” Sueidy, mesmo ferida pela perda, diz seguir pela memória do filho. “A dor da perda do Davi feriu a minha alma, mas não tirou a minha coragem de lutar pela memória do meu filho.”
No fim, as histórias de Marcinho e Davi continuam sendo contadas porque suas mães se recusam a permitir que eles sejam lembrados apenas pelo modo como morreram. Suzana e Sueidy falam dos filhos como quem reivindica o direito de vê-los inteiros: jovens com sonhos, afetos, amigos, família e futuro. E, enquanto esperam respostas, transformam a maternidade em permanência. Porque, para elas, lutar por justiça é a única forma possível de continuar sendo mãe.



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